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Sair de um lugar onde se tem tudo, casa, família, bens – para andar sem destino certo, não será coisa de louco? Pois foi o que Abraão fez. Primeiro residiu em Ur dos Caldeus, que era um grande centro na Mesopotâmia, inclusive de culto, pois uma extensa área da cidade era ocupada por templos, dos quais o principal dedicado à Lua, padroeira da terra. Depois ele foi residir em companhia da família noutro ponto também importante da Mesopotâmia: Harã. Entreposto comercial para onde convergiam as caravanas. Pois em Harã começou a grande aventura, quando Deus lhe disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei.” (Gênesis 12:1) E ele foi. Sem saber para onde ia. Não levava roteiro nem mapa. Ia ao Deus dará. Armando e desarmando a sua tenda. Sem se esquecer jamais de erguer ao lado dela um altar, onde sacrificava. Andando, andando. Sempre devagar. Ao passo lento da família dos empregados e do gado que não era pouco.
Assim ele envelheceu andando. Morreu andando. E, andando como andou, nunca teve um palmo de terra que fosse seu, a não ser o pedaço de chão que lhe serviu de sepultura, a ele e a esposa. Esse ele não quis receber de graça das mãos dos dono, mas fez questão de comprar por preço justo. Quatrocentos ciclos de prata. Era um campo, onde havia no meio das árvores uma caverna.
Agora perguntamos: não seria isso coisa de louco? Afinal de contas: quem era Abraão? Um aventureiro? Um visionário? Um neurótico absorvido por uma obsessão, por uma idéia fixa? Nada disso. Ele foi simplesmente um homem de fé. Ele creu na promessa de Deus. E porque creu deixou-se levar pelas mãos do Senhor rumo ao desconhecido. E que ganhou ele se nem sequer chegou a possuir o solo que seus pés pisaram e que Deus lhe prometera? Bem: quanto à terra prometida, ele a conseguiu, pois não a percorreu toda? Assim ela foi sua, como peregrino. E nós o que havemos de ser além disso?
Em suma: Temos tudo e não temos nada. Porque temos a posse mas não temos o domínio de nada. Domínio só aparente. E da posse que temos acaba restando apenas o nosso jazigo, como aconteceu com Abraão. E nem jazigo dura para sempre: Onde está a sepultura de Abraão? Depois sim a terra é nossa. Que ninguém nos tira. Mas do lado de lá. No céu. Terra da promessa. Como Abraão que “aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e fundador”. ( Hebreus 11:10 ).
Pr. Rubens Lopes
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